Metade dos jaraquis no Lago do Puraquequara tem microplástico
Pesquisa em Manaus aponta contaminação por poliamida em peixes e associa o problema à falta de saneamento básico e coleta de lixo na Amazônia urbana.

Metade dos peixes da espécie jaraqui coletados no Lago do Puraquequara, na zona leste de Manaus, apresenta microplásticos no trato intestinal, conforme pesquisa de mestrado desenvolvida na região. O achado expõe os impactos da ausência de saneamento básico e do descarte inadequado de resíduos em áreas de ocupação urbana na Amazônia. O trabalho identificou filamentos finos com tamanho entre 0,5 e 4,37 milímetros, sendo que 85,7% das partículas correspondem a poliamida, polímero amplamente empregado pela indústria têxtil.
A contaminação atinge diretamente o jaraqui, considerado o peixe mais consumido no estado do Amazonas, o que acende um alerta sobre a segurança alimentar e o fluxo de poluentes na cadeia trófica local. A pesquisa detalhou que a ausência de redes de coleta e tratamento de esgoto faz com que efluentes domésticos de pias e máquinas de lavar sejam lançados diretamente nos corpos d'água. Como o entorno abriga cerca de cinco mil pessoas sem infraestrutura adequada, o efluente doméstico se acumula no lago e interage com o ecossistema aquático.
A situação do Puraquequara reflete um desafio sistêmico na bacia amazônica, onde cidades em expansão enfrentam déficits severos de saneamento e coleta regular de resíduos sólidos. Iniciativas comunitárias conduzidas pela ONG Asas de Socorro tentaram implementar pontos de coleta seletiva na vila em 2024, mas o projeto foi descontinuado em 2026 após o uso inadequado dos locais como descarte comum de lixo. A pressão local resultou em melhorias pontuais, como a ampliação da coleta de lixo da prefeitura de Manaus de uma para três vezes por semana após ofício da entidade.
Investigações científicas anteriores já haviam mapeado a presença de partículas plásticas em diversos pontos da Amazônia, desde igarapés urbanos e áreas de várzea até manguezais na Foz do Amazonas e unidades de conservação isoladas, como o Parque Nacional de Anavilhanas. Especialistas apontam que o transporte dos contaminantes ocorre tanto por meio da hidrografia quanto pela dispersão eólica, alcançando áreas remotas e protegidas da floresta.
Para os profissionais que atuam com licenciamento ambiental, gestão de recursos hídricos e saneamento na região, os dados reforçam a urgência de acelerar a universalização de infraestruturas básicas de esgotamento sanitário. As próximas etapas da pesquisa acadêmica na região devem avançar para a análise da distribuição dos microplásticos no sedimento, na coluna d'água e em outros tecidos dos peixes, como o fígado, ampliando o diagnóstico sobre a contaminação em ambientes amazônicos.
Com informações de Mongabay Brasil.
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