Fim da Moratória da Soja expõe Amazônia a desmate de 1,4 milhão de hectares e emissão de 745 milhões de toneladas de CO₂
Pesquisa na revista Science projeta que a Amazônia pode perder 1,4 milhão de hectares e emitir 745 milhões de toneladas de CO₂ nos próximos dez anos. O alerta surge com a saída da Abiove do pacto e o fracasso das negociações no Supremo Tribunal Federal.
A Amazônia pode perder 1,4 milhão de hectares em desmatamento adicional nos próximos dez anos, segundo estimativa publicada na revista Science. O cenário, que representa uma taxa 17% superior aos níveis históricos, aponta para a liberação de 745 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, volume comparável às emissões anuais do Canadá. A projeção surge após a desfiliação da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) do acordo voluntário e o encerramento sem consenso das negociações no Supremo Tribunal Federal (STF).
Criada em 2006, a Moratória da Soja é um acordo voluntário entre empresas, sociedade civil e governo que impedia a compra de soja cultivada em áreas desmatadas da Amazônia a partir de 2008. O mecanismo é reconhecido globalmente como uma das mais bem-sucedidas iniciativas privadas de conservação florestal.
Durante seus primeiros dez anos, a Moratória reduziu o desmatamento em 35% nas áreas de risco para a expansão da soja, poupando 1,8 milhão de hectares de floresta. Nesse mesmo período, a área cultivada com soja na Amazônia triplicou, ocupando terras já abertas e provando que é possível expandir a produção sem destruir novas florestas.
O estudo, assinado por pesquisadores do WWF Brasil, Greenpeace Brasil e de universidades americanas, entre outros, projeta um aumento da pressão sobre 28,7 milhões de hectares de florestas públicas. Essa pressão será maior em regiões com potencial de expansão de infraestrutura e vulnerabilidade à especulação fundiária. Tiago Reis, especialista em conservação do WWF-Brasil e um dos autores, ressalta que a Moratória também atuava contra o desmatamento ligado à grilagem de terras.
Pesquisadores refutaram críticas de que o acordo teria limitado oportunidades econômicas ou provocado distorções de mercado. Dados mostram que apenas 739 mil hectares de áreas aptas à soja foram desmatados legalmente após 2008, e a maioria delas não estava em propriedades produtoras de soja. A pesquisa ainda identificou 1,7 milhão de hectares de áreas já abertas e aptas para o cultivo na Amazônia, o que permitiria à produção crescer sem impactar novas florestas.
O desfecho regulatório e político do acordo tem se mostrado complexo. A Abiove, que reúne grandes tradings como Cargill, Bunge e ADM, anunciou sua desfiliação em 5 de janeiro de 2026. Quatro ações judiciais que questionam a legalidade do pacto tramitam no STF, entre elas uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra uma lei do Mato Grosso que retira incentivos fiscais de empresas signatárias da Moratória.
Uma tentativa de mediação da Corte, anunciada em março de 2026 para buscar consenso entre agricultores, indústria, Ministério Público e ambientalistas, fracassou em junho de 2026. As ações foram devolvidas aos ministros relatores para julgamento. Entre elas, aguarda-se a decisão liminar do ministro Flávio Dino que suspendeu contestações ao acordo.
A decisão do STF será determinante para engenheiros ambientais, consultores e gestores do setor. Sem a Moratória da Soja, as empresas do agronegócio e seus fornecedores podem precisar intensificar seus próprios mecanismos de rastreabilidade e controle de desmatamento. Isso é crucial para atender às crescentes exigências de mercados internacionais, que buscam cadeias produtivas sustentáveis e sem ligação com a destruição florestal. A ausência de um pacto setorial cria um vácuo regulatório, aumentando o risco de reputação e de mercado para o setor exportador brasileiro.
Com informações de Agência Brasil: Meio Ambiente.
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