Zona de baixa emissão em Londres recupera capacidade pulmonar infantil
Estudo publicado na revista The Lancet Public Health mostra que restrição a veículos poluentes reduziu o dióxido de nitrogênio e acelerou o crescimento dos pulmões de crianças na capital britânica.
A criação da Zona de Baixa Emissão em Londres (Ulez, na sigla em inglês) reverteu danos respiratórios severos em crianças que viviam em áreas com alta circulação de veículos. Lançada inicialmente em 2019 e expandida progressivamente para toda a Grande Londres, a medida cobrou uma taxa diária equivalente a cerca de 17 dólares de proprietários de carros, ônibus e caminhões antigos e altamente poluentes, além de aplicar multas aos infratores. O resultado prático foi uma queda acentuada nos níveis de dióxido de nitrogênio, poluente diretamente associado ao desenvolvimento pulmonar deficiente em humanos.
Para avaliar o impacto sanitário da política de controle de emissões, pesquisadores da Universidade de Oxford e da Queen Mary University of London acompanharam mais de 3.400 estudantes entre 6 e 9 anos. O monitoramento foi realizado entre 2018 e 2023, envolvendo escolas localizadas na região central de Londres e na cidade de Luton, situada a cerca de 30 milhas de distância, que serviu como grupo de controle por apresentar características semelhantes de poluição veicular, mas sem uma zona de ar limpo.
Antes da implementação das restrições de tráfego, as crianças londrinas apresentavam crescimento pulmonar limitado e capacidade reduzida em comparação com os pares de Luton. Com o avanço do programa, a exposição ao dióxido de nitrogênio na zona central de Londres caiu mais do que o dobro em relação a Luton. O ritmo de recuperação fez com que a capacidade pulmonar das crianças londrinas crescesse de forma acelerada até alcançar os níveis observados na cidade do interior.
A proporção de crianças com função pulmonar prejudicada caiu de 14 por cento para 9 por cento ao longo do período de análise. A melhora afasta riscos futuros para a saúde adulta, visto que menores sem o pleno desenvolvimento respiratório enfrentam maior propensão ao desenvolvimento de asma, doença pulmonar obstrutiva crônica, patologias cardiovasculares e metabólicas, além de mortalidade precoce.
Apesar dos ganhos ambientais e de saúde pública documentados na publicação científica, o programa enfrentou forte resistência política e social. O sistema exigiu a instalação de mais de 3.700 câmeras de monitoramento de tráfego em toda a cidade, das quais cerca de 1.000 unidades foram danificadas ou furtadas por opositores em atos de vandalismo. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, defendeu a ampliação do programa diante dos indicadores obtidos.
Dados oficiais divulgados junto ao levantamento estimam que os níveis de dióxido de nitrogênio nas vias públicas recuaram 27 por cento em Londres, enquanto mortes vinculadas ao ar tóxico caíram 40 por cento. Autoridades de saúde do Reino Unido ressaltam que as evidências fornecidas pelo estudo auxiliam na formulação de políticas urbanas voltadas à proteção respiratória infantil e ao estabelecimento de metas de qualidade do ar em grandes centros urbanos.
Apesar da robustez dos dados coletados pelos pesquisadores, especialistas independentes apontam cautela na atribuição exclusiva dos resultados à política de tráfego. O professor de bioestatística Stephen Burgess, da Universidade de Cambridge, argumenta que fatores externos, como as restrições e mudanças nos padrões de mobilidade provocadas pela pandemia de Covid-19, também podem ter influenciado temporariamente os índices de poluição atmosférica registrados durante o período de monitoramento.
Com informações de Yale Environment 360.
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