Preço do carbono precisa chegar a US$ 1.677 por tonelada para barrar desmatamento comercial no Sudeste Asiático
Estudo na Nature Communications aponta que 42 milhões de hectares de florestas intactas estão sob risco em concessões produtivas, enquanto valor atual dos créditos fica muito abaixo do custo de oportunidade.

A manutenção de 42 milhões de hectares de florestas intactas presas dentro de 3.754 concessões comerciais de madeira, óleo de palma e borracha no Camboja, Indonésia, Malásia e Mianmar depende de uma alta drástica no valor do mercado de carbono. Segundo pesquisa divulgada na Nature Communications por cientistas da Universidade Nacional de Cingapura e da Universidade Tecnológica de Nanyang, a perda dessa cobertura vegetal pode despejar 1,2 gigatonelada de dióxido de carbono na atmosfera nas próximas três décadas. O volume representa 20% de todas as emissões industriais registradas pelos 11 países da Associação de Nações do Sudeste Asiático entre 2000 e 2023.
O gargalo financeiro para trocar a exploração econômica pela conservação é expressivo. Para rivalizar com a lucratividade do agronegócio e da extração madeireira, o preço da tonelada métrica de dióxido de carbono precisaria oscilar entre US$ 33 e US$ 1.677. A realidade do mercado, contudo, anda em ritmo oposto: dados do Banco Mundial indicam que os créditos de desmatamento evitado na região eram cotados entre US$ 5 e US$ 12 por tonelada em meados de 2026. A discrepância evidencia que o financiamento via carbono, embora indispensável, não conseguirá conter sozinho a derrubada das matas nessas concessões.
Diferentes setores econômicos apresentam graus variados de resistência à transição verde. As concessões de celulose, papel e extração de madeira poderiam alcançar viabilidade financeira com aumentos moderados na cotação do carbono. O cenário é mais complexo para os produtores de óleo de palma, atividade que exige valores significativamente mais altos para compensar os lucros cessantes da produção agrícola.
Para fechar a conta da preservação, pesquisadores recomendam combinar múltiplas ferramentas financeiras. A lista inclui mecanismos de financiamento misto entre capital público e privado, emissão de títulos verdes focados em projetos específicos, pagamentos por serviços ecossistêmicos e créditos de biodiversidade. A diversificação de fontes surge como alternativa para cobrir a lacuna entre a remuneração atual do carbono e o custo real de oportunidade das terras.
A barreira regulatória impõe entraves rigorosos aos projetos de conservação voluntária. Governos da região costumam atrelar a manutenção dos títulos de posse ao cumprimento de metas produtivas diretas nas concessões. A empresa que decide interromper a exploração para proteger a vegetação nativa corre o risco legal de perder o direito sobre o terreno.
Sem reformas nos marcos jurídicos que autorizem a mudança na destinação do uso do solo e eliminem subsídios governamentais voltados ao desmatamento, as iniciativas de conservação em áreas concessionadas continuarão travadas. Ajustar normas de outorga e reconfigurar incentivos fiscais são passos urgentes para alinhar os interesses econômicos à proteção dos ecossistemas no Sudeste Asiático.
Com informações de Mongabay (EN).
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