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Resíduos· 22 de julho de 2026· 3 min de leitura

Indústria e Fazenda articulam agenda para reduzir 4 mi toneladas de resíduos têxteis

Representantes da indústria, governo e academia iniciaram uma articulação em São Paulo para criar uma agenda nacional de economia circular no setor têxtil, visando o reaproveitamento de materiais.

Redação Giro Ambiental
Indústria e Fazenda articulam agenda para reduzir 4 mi toneladas de resíduos têxteis

Representantes da indústria da moda, do Ministério da Fazenda, da academia e de empreendimentos de economia circular iniciaram nesta quarta-feira (15), em São Paulo, um movimento para ampliar o reaproveitamento de resíduos têxteis no Brasil. O encontro, promovido pela executiva Rachel Maia (RM International), busca construir uma agenda conjunta para transformar resíduos em novas matérias-primas e impulsionar a circularidade no setor.

O Brasil, que possui uma das maiores cadeias têxteis do Ocidente, gera mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, volume que representa cerca de 5% dos resíduos sólidos urbanos (RSU). Um levantamento da consultoria S2F Partners indica que cada domicílio brasileiro descartou, em média, 44 quilos de roupas e calçados em 2024. Apesar desse montante, apenas 6,9% desses materiais retornam à cadeia produtiva como matéria-prima secundária.

Além do desperdício, a indústria da moda contribui com 2% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, consome cerca de 215 trilhões de litros de água anualmente e é responsável por aproximadamente 9% da poluição por microplásticos nos oceanos, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Rachel Maia destaca que o desafio é ambiental, mas também de competitividade e inovação.

A proposta do grupo é promover um processo de escuta entre empresas, pesquisadores, governo e empreendedores para identificar gargalos, mapear oportunidades de colaboração e definir ações que possam ampliar a circularidade do setor. O primeiro encontro reuniu representantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Ministério da Fazenda e de empresas como C&A, Grupo Shoulder, Veste e Pernambucanas, além de cooperativas e negócios focados em economia circular.

Para André Helleno, coordenador do mestrado profissional em Engenharia de Produção da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a reciclagem de resíduos têxteis é mais complexa que a de materiais como alumínio ou vidro. A dificuldade reside na composição de uma peça de roupa, que reúne diferentes fibras e componentes (algodão, poliéster, zíperes, botões), tornando a separação cara e de difícil escalabilidade. As tecnologias de reciclagem mecânica e química ainda enfrentam limitações com produtos complexos e contaminantes emergentes, respectivamente, com a questão da escalabilidade dos custos sendo o maior desafio no Brasil.

Carolina Grottera, subsecretária de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, avalia que a cadeia têxtil tem potencial para se tornar um exemplo para outros segmentos da economia. Embora o país não possua um sistema específico de logística reversa para produtos têxteis, existem instrumentos como linhas de financiamento, incentivos à inovação e a futura Taxonomia Sustentável Brasileira, que poderá orientar investimentos em reciclagem, ecodesign e reutilização.

A subsecretária também ressaltou o potencial social da economia circular, visto que aproximadamente 60% dos trabalhadores do setor têxtil são mulheres. Iniciativas de reaproveitamento de resíduos podem fortalecer atividades como brechós, customização, reparo e upcycling. O governo já dispõe de instrumentos como a Lei de Incentivo à Reciclagem, que disponibilizou R$ 345 milhões em 2025, diante de uma demanda de R$ 2,2 bilhões em projetos. O próximo passo é converter esses instrumentos gerais em uma iniciativa estruturada para a cadeia têxtil, com projetos-piloto, financiamento para inovação e rastreabilidade, compras públicas e mecanismos específicos de logística reversa.

Enquanto políticas públicas e novas regulamentações são discutidas, parte da indústria já testa modelos circulares. A C&A, por exemplo, produziu mais de 250 mil peças com fibras reaproveitadas no programa Jeans Circular e coletou mais de 410 mil peças desde 2017. A Insider desenvolveu um biocouro de borra de café, e o Grupo Malwee lançou o Fio do Futuro, feito com roupas descartadas. No entanto, a Associação Brasileira do Trade de Têxteis e Moda (ABTT) estima que, embora 20% dos resíduos têxteis sejam reciclados no Brasil, apenas 1% retorna à produção de novas roupas, com a maior parte sendo destinada ao downcycling (produtos de menor valor agregado).

Para o profissional da área ambiental, a articulação sinaliza a iminência de novas exigências regulatórias e incentivos para a gestão de resíduos têxteis. Empresas deverão adaptar seus processos de descarte e design de produtos, enquanto consultores e gestores ambientais precisarão dominar as complexidades da reciclagem de fibras mistas e a aplicação de instrumentos como a Taxonomia Sustentável Brasileira para orientar investimentos e projetos de circularidade.

Com informações de Um Só Planeta.

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