Giro AmbientalNewsletter
Biodiversidade· 25 de julho de 2026· 2 min de leitura

Fogo na Amazônia: estudo de 20 anos revela perda de 50% da diversidade

Estudo de 20 anos na Amazônia aponta que, apesar da regeneração pós-incêndio, a floresta perde até 50% de sua diversidade de espécies, trocando árvores especialistas por generalistas.

Redação Giro Ambiental
Fogo na Amazônia: estudo de 20 anos revela perda de 50% da diversidade

Uma pesquisa de duas décadas no sudeste da Amazônia, liderada por Leandro Maracahipes (Ipam e Universidade de Yale) e Paulo Brando (Universidade de Yale), revelou que a floresta, apesar de sua surpreendente capacidade de regeneração após incêndios, enfrenta uma perda significativa de biodiversidade. O estudo, iniciado em 2004 e com resultados publicados em abril de 2026, aponta que a diversidade de espécies pode ser reduzida em até 50% em algumas áreas, com implicações para a resiliência futura do bioma.

Conduzido na Estação de Pesquisa Tanguro, no Mato Grosso, o experimento analisou uma área florestal de 150 hectares, dividida em três lotes: um com queimadas anuais, outro com fogo a cada três anos e uma área de controle sem incêndios. O objetivo era prever os riscos à floresta tropical diante do aumento do desmatamento, da queda de precipitação e das secas prolongadas, fatores que intensificam a ocorrência de incêndios.

Os pesquisadores constataram uma rápida recuperação ecológica, com a cobertura arbórea se restabelecendo e competindo com gramíneas. No entanto, a análise detectou uma alteração na composição de espécies. Em zonas limítrofes, a perda de diversidade de plantas variou de 31,3% a 50,8%. Árvores especialistas, como o louro-prata (Ocotea guianensis) e a mangabinha (Micropholis egensis), foram substituídas por espécies generalistas de crescimento rápido, a exemplo do taquari (Mabea fistulifera) e do tachi-do-campo (Tachigali vulgaris).

Essa substituição é crítica porque as árvores especialistas possuem alta densidade de madeira, resistem mais ao fogo e a ventos fortes, e estocam carbono por longos períodos. Além disso, são fundamentais para a alimentação da fauna local. A nova floresta, com maior proporção de espécies generalistas, torna-se mais vulnerável a novos distúrbios e aos efeitos da crise climática, apesar de não apresentar sinais de savanização no curto prazo, como a maior presença de gramíneas.

A tese da savanização da Amazônia, defendida por cientistas como Carlos Nobre (IEA/USP e SPA), sugere que a floresta densa se transformaria em um ecossistema esparso, semelhante ao Cerrado. Nobre aponta que a interação entre desmatamento e aquecimento global, com o aumento da frequência de secas severas (quatro em duas décadas, contra uma a cada duas décadas antes), tem prolongado a estação seca no sul da Amazônia em 4 a 5 semanas em 45 anos. Contudo, o estudo de Maracahipes não encontrou evidências de savanização, pois o fechamento do dossel da floresta eliminou as gramíneas típicas desse processo.

Para o setor ambiental, os resultados sublinham a importância de estratégias de prevenção e manejo do fogo e de proteção de áreas degradadas. Paulo Brando, coautor do estudo, enfatiza que recuperar uma floresta degradada é mais rápido e eficaz do que iniciar um projeto de restauração do zero, desde que os elementos certos, como a presença de animais e a dispersão de sementes, estejam presentes. Isso sugere que as políticas públicas devem priorizar a proteção e a regeneração natural de áreas já impactadas, em vez de focar apenas no plantio de novas florestas, para garantir a resiliência e a manutenção dos serviços ecossistêmicos da Amazônia.

Com informações de Mongabay Brasil.

Compartilhar:WhatsAppXLinkedIn

Leia também

O Giro na sua caixa de entrada

As notícias que importam para quem é da área ambiental, uma vez por semana. Sem spam.