Giro AmbientalNewsletter
Geral· 21 de julho de 2026· 3 min de leitura

Poluição sonora de barcos e turistas silencia peixes em recifes de Pernambuco, alerta UFPE

Motores de embarcações e a movimentação de banhistas em praias de Pernambuco criam poluição sonora que impede a comunicação de peixes, ameaçando a saúde de recifes de corais, revela estudo da UFPE.

Redação Giro Ambiental
Poluição sonora de barcos e turistas silencia peixes em recifes de Pernambuco, alerta UFPE

O ruído constante de motores de embarcações e a movimentação de banhistas nas praias afetam diretamente a comunicação sonora dos peixes em recifes de corais de Pernambuco. Uma pesquisa recente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicada em 20 de maio na revista Neotropical Ichthyology, alerta que essa poluição sonora pode trazer consequências negativas para a alimentação, reprodução e defesa territorial de diversas espécies, comprometendo a saúde dos ecossistemas recifais.

O trabalho de campo foi realizado entre janeiro e fevereiro de 2022, durante a alta temporada turística, e novamente em abril de 2023. Os pesquisadores focaram em duas importantes regiões do litoral pernambucano: as praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe, e Tamandaré, na APA Costa dos Corais. Nesses locais, foram instalados sistemas de gravação subaquática, que registraram 80 horas de dados acústicos, complementados por censos visuais para identificar as espécies de peixes presentes.

A análise dos dados revelou uma clara redução na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes, especialmente nas áreas com maior presença de ruído causado pela atividade humana. De nove diferentes tipos de sons identificados, três simplesmente deixaram de ser emitidos em pontos expostos à presença de pessoas. Esse fenômeno pode ser explicado por duas vias: o mascaramento acústico, onde o barulho contínuo encobre os sinais dos peixes, ou a supressão comportamental, que leva os animais a reduzir ou cessar suas vocalizações.

Para Túlio Freire Xavier, um dos autores do estudo e pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, a comunicação sonora é vital para a sobrevivência dessas espécies. "É fundamental para comportamentos como a localização de parceiros para reprodução, a defesa de território contra invasores e a detecção de predadores", explica. O prejuízo a essa capacidade de comunicação pode desequilibrar as cadeias alimentares e afetar a produtividade desses ambientes, que sustentam atividades econômicas cruciais como o turismo e a pesca artesanal.

Embora o experimento tenha sido conduzido em Pernambuco, o problema da poluição sonora subaquática não se restringe a essas praias. O pesquisador adverte que o impacto pode se repetir em outros importantes recifes brasileiros, a exemplo de Abrolhos e Fernando de Noronha. Isso ocorre sempre que há intenso tráfego de embarcações ou outras fontes de ruído que coincidam com as frequências utilizadas pelos peixes. Atualmente, não existem limites universalmente aceitos para níveis seguros de ruído em ambientes recifais para a proteção da fauna.

Para mitigar o problema, o estudo propõe medidas relativamente simples. Entre elas, a organização de rotas de embarcações, a redução da velocidade em áreas sensíveis e o controle da concentração de atividades náuticas sobre recifes específicos. A integração do componente acústico no planejamento de atividades turísticas e no manejo ambiental é vista como essencial para preservar a paisagem sonora e o funcionamento ecológico desses ecossistemas.

Profissionais da área ambiental, gestores de unidades de conservação costeiras e consultores em licenciamento devem, portanto, passar a considerar a poluição sonora subaquática como um fator de impacto significativo em estudos ambientais e planos de manejo.

A ausência de regulamentação específica sobre limites de ruído para ambientes recifais reforça a necessidade urgente de monitoramento acústico e da implementação de medidas preventivas em projetos e operações que envolvam tráfego náutico em áreas sensíveis, visando a proteção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem.

Com informações de Agência Brasil: Meio Ambiente.

Compartilhar:WhatsAppXLinkedIn

Leia também

O Giro na sua caixa de entrada

As notícias que importam para quem é da área ambiental, uma vez por semana. Sem spam.