Fragmentação de habitats expõe 10 espécies de felinos selvagens a doenças domésticas
O contato entre animais domésticos e silvestres, impulsionado pela expansão urbana e obras de infraestrutura, ameaça populações de onças-pintadas e outras espécies em todo o Brasil.

A fragmentação de habitats e a expansão urbana no Brasil têm facilitado a transmissão de doenças de gatos domésticos para felinos selvagens, colocando em risco a sobrevivência de espécies ameaçadas. O fenômeno, que atinge biomas da Amazônia ao Pampa, força os felinos silvestres a se aproximarem de áreas modificadas pela ação humana, aumentando a chance de contágio por patógenos comuns em animais domésticos.
Especialistas alertam que todas as 10 espécies de felinos nativos do Brasil, da onça-pintada (Panthera onca) ao gato-palheiro-pampeano (Leopardus munoai), estão sob ameaça. Doenças virais como o vírus da imunodeficiência felina (FIV), o vírus da leucemia felina (FeLV) e a panleucopenia (causada pelo parvovírus felino, FPV) podem impactar significativamente essas populações. Conforme Flavia Tirelli, doutora em zoologia e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), espécies ameaçadas, com populações menores e mais isoladas, são as mais vulneráveis.
O cenário é agravado pelo grande número de gatos domésticos no país, estimado em cerca de 30 milhões, com aproximadamente 10 milhões vivendo em situação de rua ou sem tutela definida, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa realidade favorece a proliferação de doenças e o surgimento de animais semiferais, além do risco de hibridização que compromete o perfil genético das espécies selvagens e as torna mais suscetíveis a enfermidades.
A fragmentação de habitats é o principal motor dessa crise, resultante da expansão urbana, da conversão de terras para a agricultura e da construção de obras de infraestrutura, como estradas e rodovias. Muitos desses projetos avançam apesar de alertas ambientais, criando "ilhas" de vegetação que concentram a fauna e facilitam a dispersão de patógenos entre espécies domésticas e silvestres. A proximidade forçada entre animais de diferentes ambientes aumenta a probabilidade de surtos.
Além dos vírus mais conhecidos, um estudo de 2024 sobre enfermidades em felinos selvagens brasileiros destacou o risco de exposição ao vírus da cinomose (CDV), adenovírus e raiva. A cinomose, embora mais comum em cães, pode ser letal para felídeos selvagens. Já a raiva, de alta letalidade, pode fazer com que felinos silvestres atuem como vetores para humanos e outras espécies, como indicado pela detecção de anticorpos em onças-pintadas no Pantanal e no Parque Nacional das Emas (GO), uma unidade de conservação de 132 mil hectares.
Para o profissional de meio ambiente, este cenário sublinha a necessidade de maior rigor na avaliação de impactos ambientais (EIA/RIMA) de empreendimentos que causam fragmentação de habitat, com a inclusão de planos de mitigação que considerem a transmissão de doenças. A proteção de áreas naturais e a gestão de seus entornos, incluindo a vacinação de animais domésticos em comunidades próximas, tornam-se medidas cruciais. A complexidade do monitoramento de patógenos em ambientes fragmentados exige abordagens integradas na gestão ambiental e no licenciamento, visando à conservação da biodiversidade e à saúde pública.
Com informações de Mongabay Brasil.
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