Fragmentos de vegetação nativa caem 43% em 38 anos, mostra MapBiomas
Dados do módulo de Degradação do MapBiomas mostram menos área fragmentada, mas em mais pedaços cada vez menores, sobretudo na Mata Atlântica.
A área de vegetação nativa fragmentada por desmatamento para mudança de uso da terra caiu 43% entre 1986 e 2024, segundo o módulo de Degradação do MapBiomas. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (29) e apresentados em Yerevan, na Armênia, durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), da ONU.
O total passou de 287 hectares fragmentados em 1986 para 163 hectares em 2024. Fragmentos são porções de mata original cercadas por áreas desmatadas para agricultura, pasto ou urbanização. A queda na área total, porém, não significa menos fragmentação. O número de recortes subiu de 2,35 milhões para 3,41 milhões no período, ou seja, a vegetação restante está mais dividida em pedaços menores.
Pedaços menores e mais numerosos
O recorte por bioma mostra onde o problema está mais concentrado. A Mata Atlântica tem o maior número de áreas recortadas, 1,38 milhão, e também os menores trechos, com média de 25 hectares. O Cerrado aparece em segundo, com 957 mil pequenas porções, e tem fragmentos médios de 105 hectares. O Pampa tem média de 81 hectares.
Na Amazônia, os fragmentos são os maiores, com média de 662 hectares em 2024. Ainda assim, desde 1986, quando a média era de 2,7 mil hectares, o tamanho dos fragmentos caiu 76%. O número de porções isoladas na região subiu de 144 mil para 519 mil, alta de 260%, conforme os dados do MapBiomas para o país.
Quase metade dos fragmentos do país (49%) está em cinco estados: Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná. Dos 20 municípios com menor área média recortada, 12 estão no Sudeste, cinco no Nordeste e três no Sul. Na Região Norte, 19 dos 20 municípios com trechos maiores se concentram, e Itamarati (AM) lidera, com 65,6 mil hectares de área média.
Efeito de borda e risco de fogo
Segundo o pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) Dhemerson Conciani, coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas, a fragmentação dificulta a dispersão de sementes e a circulação de animais. Ele afirma que isso reduz o fluxo gênico, a transferência de material genético entre populações, e aumenta o risco de extinções locais.
As áreas de borda são faixas de 30 a 150 metros próximas às regiões desmatadas. Nelas, a vegetação sofre com entrada excessiva de luz, exposição a ventos fortes e perda de umidade do solo, o que leva ao assoreamento. Conciani diz que, com a paisagem mais fragmentada, a exposição a esses efeitos e ao fogo cresce, sobretudo em anos de eventos climáticos extremos.
Os pesquisadores estimam que entre 37 milhões e 102 milhões de hectares de vegetação nativa no país estejam em área de borda, o equivalente a 7% a 18% da vegetação nativa brasileira. O Cerrado concentra a maior extensão nessa condição, entre 11 milhões e 32 milhões de hectares. Em proporção, a Mata Atlântica é o bioma mais exposto, com 29% a 66% da vegetação remanescente em borda.
O que muda para quem licencia e restaura
O eixo técnico do levantamento é a conectividade. Para o pesquisador da GeoKarten Eduardo Vélez, que também integra o grupo de Degradação do MapBiomas, os dados atualizados ajudam a dimensionar o problema e a orientar ações de restauração voltadas a maior conectividade ecológica. Para quem elabora compensação, recomposição ou plano de restauração, a leitura por bioma e por município pode indicar onde a fragmentação já reduziu o tamanho médio dos trechos.
Para o gestor ambiental e o consultor que trabalham com supressão de vegetação, o dado mais útil é o de borda: quanto menor o fragmento, maior a parcela da mata exposta aos efeitos de borda. Vale cruzar a análise de cada área com o mapeamento de fragmentos da região antes de definir medidas de compensação ou de conectividade.
Com informações de Agência Brasil: Meio Ambiente.
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