Cientistas explicam: Ar limpo agrava calor na Europa, mas gases-estufa são a causa
Pesquisa mostra que a redução de aerossóis removeu um 'mascaramento' do aquecimento, mas o fator principal das ondas de calor são os gases de efeito estufa.

As recentes ondas de calor recordes na Europa, amplamente atribuídas às mudanças climáticas, geraram um debate sobre suas causas. No entanto, uma nova pesquisa científica foi distorcida por veículos de mídia e figuras políticas, que alegaram que a queda da poluição do ar seria a "causa" dos eventos extremos, ligando-os erroneamente a políticas de carbono zero. Cientistas que participaram do estudo e outros especialistas refutam essa interpretação, esclarecendo que as ondas de calor são impulsionadas principalmente pelo aquecimento global causado pelos gases de efeito estufa.
A pesquisa em questão, publicada na Geophysical Research Letters, busca entender por que as temperaturas de verão na Europa sobem mais rapidamente do que em outras regiões do hemisfério norte. O estudo investiga o papel da poluição do ar, especialmente como ela afeta os padrões de circulação atmosférica. Os cientistas explicam que emissões de aerossóis (pequenas partículas que dispersam a luz, produzidas principalmente pela queima de combustíveis fósseis) atuaram historicamente como um "mascaramento" do aquecimento global, absorvendo ou refletindo a luz solar e influenciando a formação de nuvens.
Com a melhoria da qualidade do ar na Europa a partir da segunda metade do século XX, o efeito de resfriamento desses aerossóis foi gradualmente removido. Essa redução pode intensificar as ondas de calor de duas maneiras: diretamente, permitindo que mais luz solar atinja a superfície, e indiretamente, influenciando a corrente de jato. O estudo utilizou centenas de simulações de nove modelos climáticos para descobrir que a diminuição dos aerossóis resulta em ondas de Rossby "quase estacionárias" mais frequentes, que são meandros lentos na corrente de jato que permitem que sistemas climáticos fiquem estagnados, prolongando as ondas de calor.
Apesar da influência dos aerossóis, o professor Erich Fischer, cientista climático da ETH Zurich, enfatiza que é "errado" dizer que as ondas de calor são "causadas" por sua diminuição. Ele explica que esses eventos são causados por sistemas de alta pressão e se tornam mais frequentes e intensos porque ocorrem em um clima significativamente mais quente. A pesquisa demonstra que o aquecimento de verão induzido por gases de efeito estufa foi temporariamente mascarado pelos aerossóis poluentes, e a extensão total desse aquecimento só se torna visível agora com a redução da poluição do ar.
O Dr. Pedro Roldán-Gómez, autor principal do estudo e pesquisador associado no Barcelona Supercomputer Centre, esclarece que a contribuição dos gases de efeito estufa é, em qualquer caso, o fator mais importante. A ligação feita por alguns comentaristas entre a redução da poluição e as políticas de carbono zero é igualmente imprecisa. O professor Bjørn Samset, do Center for International Climate Research (CICERO), na Noruega, aponta que as metas de carbono zero foram estabelecidas décadas após os esforços cumulativos para reduzir a poluição do ar, iniciados nos anos 1980.
Outra imprecisão notável na cobertura da mídia foi a atribuição da queda da poluição do ar ao Protocolo de Montreal. Samset corrige que o Protocolo não tratou da poluição do ar por aerossóis, mas sim de gases que destroem a camada de ozônio. A legislação para ar limpo já estava em vigor em muitos países europeus antes da assinatura do Protocolo em 1987. Roldán-Gómez reconhece que, embora o Protocolo não visasse especificamente os aerossóis, ele impulsionou as políticas de ar limpo.
Para os profissionais da área ambiental, a compreensão precisa desses mecanismos é crucial. A limpeza dos aerossóis poluentes continua sendo uma meta ambiental altamente desejável, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimando 7 milhões de mortes prematuras anuais devido à poluição do ar. Ignorar a causa primária das ondas de calor, que são os gases de efeito estufa, e focar apenas no efeito de "desmascaramento" dos aerossóis, pode desviar o foco de políticas climáticas essenciais, como a descarbonização, e gerar riscos regulatórios ao desinformar sobre a eficácia de medidas de controle da poluição do ar.
Com informações de Carbon Brief.
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