Seis anos do Marco do Saneamento: R$ 227,5 bi e desafios para 2033
A Lei nº 14.026/2020 completou seis anos com R$ 227,5 bilhões em investimentos, mas a universalização de água e esgoto até 2033 ainda enfrenta obstáculos regulatórios e de governança.
A Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020, que revisou o Marco Legal do Saneamento Básico, completa seis anos com um balanço de R$ 227,5 bilhões em contratos de investimento e R$ 70 bilhões em outorgas gerados pela participação privada. Apesar do avanço normativo e da regionalização em quase todos os estados, a universalização de água e esgoto até 2033 ainda enfrenta desafios significativos de implementação e governança, conforme apontado por estudos recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Instituto Água e Saneamento (IAS).
A legislação estabeleceu metas ambiciosas de 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Para isso, a lei apostou na regionalização da gestão dos serviços, no incentivo à concorrência entre empresas e na uniformização do arcabouço regulatório. As competências da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) foram expandidas, e o Comitê Interministerial de Saneamento Básico (CISB) foi criado para articulação e priorização de investimentos federais.
A regionalização avançou em quase todos os estados brasileiros, com exceção de Amapá e Rio de Janeiro, que aprovaram leis para reorganizar os serviços. Esse movimento resultou em 30 projetos que transferiram operações para a iniciativa privada, fazendo com que a prestação privada seja hoje responsável pelo atendimento em metade dos municípios do país. O prazo para finalizar a implementação da regionalização foi prorrogado e está previsto para o final de 2027.
Contudo, os indicadores nacionais ainda não refletem o acesso seguro e contínuo aos serviços na mesma proporção dos investimentos. A legislação tem sido criticada pela perda da abordagem integrada dos quatro componentes do saneamento (água, esgoto, resíduos e drenagem), pela ausência de reconhecimento explícito da água e do esgotamento sanitário como direitos humanos, e pela redução do protagonismo municipal na gestão dos serviços.
A governança das microrregiões, modelo predominante de arranjo regional, ainda revela fragilidades, como a institucionalização precária das instâncias e a concentração de poder nos estados, em detrimento da participação municipal. Além disso, a participação social no setor perdeu espaço com o enfraquecimento de mecanismos de controle, como a extinção do Conselho das Cidades e a ausência de instrumentos nacionais equivalentes, substituídos pela lógica de mercado.
Outra lacuna apontada é a articulação insatisfatória do saneamento com as estratégias de adaptação às mudanças climáticas, especialmente no componente de drenagem urbana. O aumento da frequência de eventos climáticos extremos afeta a infraestrutura e a continuidade dos serviços, ampliando vulnerabilidades, sobretudo em populações com acesso precário.
Para os profissionais do setor, o cenário atual exige atenção redobrada aos atrasos nos planos municipais e regionais, nos sistemas de informação e no monitoramento das metas. A distribuição desigual dos investimentos e a necessidade de fortalecer as estruturas de governança regional e os mecanismos de controle social indicam que o cumprimento das metas de 2033 demandará um esforço regulatório e de gestão muito maior nos próximos anos, com foco na efetiva entrega dos serviços à população e na integração com a pauta climática.
Com informações de Instituto Água e Saneamento.
Leia também
Lodos ativados ou reator anaeróbio: qual tratar o esgoto
Lodos ativados usa oxigênio e entrega efluente mais limpo; o reator anaeróbio é barato e gera biogás, mas costuma exigir pós-tratamento.
ETE ou fossa séptica: qual solução de esgoto escolher
A fossa séptica atende imóvel isolado e a ETE trata volumes maiores até o padrão de lançamento; vazão e ponto de descarte definem.
ABES orienta saneamento sobre escassez de ácido fluossilícico
Nota técnica da ABES define procedimentos para prestadores diante da falta de insumo para fluoretação da água de abastecimento.
Fonte: ABES
Escassez de ácido fluossilícico obriga ABES a orientar saneamento
Associação publica nota técnica com diretrizes para prestadores de saneamento comunicarem autoridades e gerenciarem a interrupção temporária da fluoretação da água.
Fonte: ABES
O Giro na sua caixa de entrada
As notícias que importam para quem é da área ambiental, uma vez por semana. Sem spam.