Relatórios ligam First Resources a empresas do desmatamento em Bornéu
Investigações apontam controle da Fangiono sobre produtoras de óleo de palma no leste de Kalimantan, com desmatamento de mais de 9,8 mil hectares entre 2021 e 2026.

Duas investigações de organizações não governamentais reuniram indícios de que empresas ligadas ao desmatamento em Bornéu são, na prática, controladas pela First Resources, produtora de óleo de palma com ações negociadas em Singapura e comercializada como sustentável. O relatório da Rainforest Action Network (RAN) cruza registros de transporte, documentos contábeis internos e depoimentos de funcionários para ligar as produtoras indonésias KAS Group e FAP Agri à empresa, controlada pela família Fangiono. Um segundo relatório, da Environmental Investigation Agency e da Kaoem Telapak, também aponta vínculos entre as três companhias e indícios de que operam como um único grupo.
Segundo a RAN, o óleo de palma bruto das usinas dos três grupos era levado a um terminal de armazenagem e embarque da First Resources no rio Mahakam, na província de Kalimantan Leste. Ali o produto era misturado e depois enviado a refinarias. A investigação foi conduzida de janeiro a julho de 2026. Em maio de 2026, a equipe acompanhou caminhões carregados com óleo da usina Borneo Citra Persada Mandiri, do KAS Group, até a PT Citra Agro Kencana (PT CAK), uma das maiores usinas da First Resources na região. Funcionários de usinas do KAS Group também disseram que o produto de suas unidades era transportado com regularidade para o terminal.
A reportagem também cita um processo de 2023 movido por uma empresa do KAS Group, a PT Agro Mananggul Selaras. Testemunhas, entre elas funcionários que conferiam e pesavam caminhões na PT CAK, descreveram entregas regulares entre as duas operações até julho de 2023, segundo documentos judiciais consultados pela Mongabay. A RAN também documentou uma barcaça com óleo da PT Setia Agro Abadi (SAA), do KAS Group, que seguiu rio abaixo até a PT CAK antes de chegar à baía de Balikpapan, polo de refino e exportação. O relatório ainda acusa a First Resources de processar amêndoas de palma de usinas do KAS Group para produzir óleo de palmiste, produto de maior valor. Em julho, caminhões foram filmados levando amêndoas para a planta de esmagamento da PT CAK. A empresa não respondeu às perguntas sobre a origem dessas amêndoas.
Desmatamento e controle de terras
Imagens de satélite analisadas pela RAN identificaram oito empresas ligadas aos três grupos com desmatamento de mais de 9.800 hectares de floresta natural em uma amostra de 11 concessões, entre janeiro de 2021 e maio de 2026. Seis concessões do KAS Group responderam por 8.796 hectares, a maior parte da perda. As concessões da FAP Agri perderam 472 hectares, e a concessão PT Borneo Damai Lestari, da First Resources, perdeu 514 hectares. Boa parte do desmatamento nesta concessão ocorreu em 2025 ou depois, segundo a análise. A SAA aparece como o maior desmatador do distrito de Mahakam Ulu, com mais de 3.500 hectares derrubados no mesmo período, em uma área com acusações de grilagem contra moradores. Um representante do governo afirmou recentemente que o conflito foi resolvido.
A RAN estima que empresas ligadas à família Fangiono controlem 217.165 hectares em Mahakam Ulu e Kutai Barat, o equivalente a 64% das concessões de dendê dos dois distritos. A região abriga trechos de floresta tropical ainda íntegra e habitat de orangotangos-de-bornéu, gibões e do boto-do-irrawaddy, conhecido localmente como pesut.
Versões das empresas e antecedentes
Em 2023, a organização de jornalismo independente The Gecko Project já havia apontado uma rede de empresas de fachada que, segundo a apuração, seria controlada de forma oculta pela First Resources. Essas companhias teriam derrubado mais de 95.000 hectares de floresta depois que a First Resources entrou na Mesa Redonda sobre Óleo de Palma Sustentável (RSPO), em 2008. Ex-funcionários descreveram as empresas como uma operação única, com trocas de equipe e escritórios compartilhados.
A First Resources negou o controle em comunicado enviado à bolsa de Singapura. Em entrevista à Mongabay, na sede da empresa em Singapura, em 21 de outubro, a CEO Ciliandra Fangiono reafirmou que as companhias não têm vínculo familiar. Ela disse que a FAP Agri é fornecedora, sem participação societária nem gestão das operações, e que a empresa não compra óleo do KAS Group. Em comunicado de 27 de outubro, a First Resources lembrou que uma denúncia semelhante foi apresentada ao RSPO em 2021 e arquivada em 2025, pois o conselho não conseguiu comprovar controle sobre empresas afiliadas. Após a reportagem do Gecko Project, marcas como Beiersdorf, Danone e Procter & Gamble deixaram de comprar da First Resources. A RAN afirma que o novo material indica que o conselho da empresa induziu em erro acionistas e a bolsa de Singapura no relatório de 2024.
O que muda para quem fiscaliza e compra
Para o setor, o caso mostra o peso da estrutura societária na verificação de cadeias de fornecimento. Uma política de desmatamento zero só funciona se o fornecedor for identificado pelo controlador real, e não apenas pelo nome que aparece na cadeia direta. A análise por satélite e a rastreabilidade por caminhão, barcaça e registro de pesagem são os instrumentos que os relatórios usaram para ligar as operações. Quem licencia ou audita usinas e terminais na região deve olhar para a origem documental do óleo e das amêndoas, além das concessões em nome das empresas.
Com informações de Mongabay (EN).
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