Pandemia deixou marca em tipuanas de SP: madeira mais densa
Estudo da USP com anéis de crescimento de tipuanas da Avenida 23 de Maio registra queda de CO₂ fóssil e aumento da densidade da madeira durante o lockdown.

Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em parceria com instituições brasileiras e chilenas, identificaram mudanças na composição química e na densidade da madeira de tipuanas plantadas na Avenida 23 de Maio, uma das vias mais movimentadas de São Paulo. O período analisado foi o da redução do trânsito durante a pandemia de covid-19. O artigo foi publicado no periódico Environmental Pollution e tem como autor principal Augusto Miyahara, pesquisador de pós-doutorado no Cena, orientado por Giuliano Locosselli, docente da mesma instituição.
A base do trabalho são os anéis de crescimento do tronco. Em espécies como a tipuana, cada anel corresponde, em geral, a um ano de crescimento. Na região de São Paulo, segundo Locosselli, as árvores crescem na estação chuvosa, entre setembro e abril do ano seguinte, e cada retomada de crescimento forma um novo anel. O problema era que o lockdown durou pouco mais de algumas semanas, tempo curto demais para ocupar um anel inteiro. A solução foi dividir cada anel em 15 segmentos, o que permitiu isolar trechos que correspondem a semanas de vida da planta.
Os pesquisadores compararam as tipuanas da Avenida 23 de Maio com exemplares do Parque Ibirapuera, usado como área de comparação por ter menor exposição direta às emissões veiculares. O recorte incluiu um período anterior à pandemia e dois anos da crise sanitária, com foco nos anéis formados entre 2020 e 2021.
Na primeira técnica, a análise de isótopos de carbono, a equipe observou aumento na proporção de carbono-13 durante o lockdown. A queima de combustíveis fósseis libera CO₂ com mais carbono-12, que é o isótopo mais leve. Com menos veículos queimando combustível, o carbono registrado no anel ficou relativamente mais pesado. Locosselli resume a leitura assim: a árvore guarda no anel a mudança da composição do ar.
A segunda técnica foi a densitometria por raios-X, que mede a densidade da madeira ao longo do anel. Na Avenida 23 de Maio, a densidade aumentou no período do lockdown. Segundo o orientador, essa mudança não apareceu nas árvores do Ibirapuera.
O que a madeira mais densa indica
Os pesquisadores ligam o resultado a uma resposta fisiológica. Com menos CO₂ disponível no ar, a árvore abre mais os estômatos, os poros das folhas, para captar gás carbônico suficiente. Essa abertura, porém, aumenta a perda de água por transpiração e eleva o risco de estresse hídrico. Quando a coluna de água que atravessa a madeira se rompe, a planta perde a capacidade de transportar água naquele trecho. Por isso, para Locosselli, madeira mais densa reduz de forma importante a chance dessa falha. A pesquisa integra o projeto Florestas Funcionais, financiado pela Fapesp, e teve apoio da Capes e do CNPq.
Os autores fazem uma ressalva. Uma redução abrupta da poluição, como a do lockdown, provoca resposta aguda na planta. Uma transição energética gradual pode produzir outro efeito, com aclimatação lenta, e isso exige estudos de longo prazo. O próprio Locosselli diz que a conclusão sobre madeira mais resistente a secas depende de uma redução futura e sustentada das emissões veiculares.
Para quem trabalha com arborização urbana e monitoramento da qualidade do ar, o dado tem uso prático. Os anéis de tipuanas em vias de tráfego intenso passam a ser registro de variações atmosféricas em escala de semanas, o que o monitoramento convencional nem sempre captura com a mesma resolução. A técnica, porém, ainda depende de análise laboratorial de isótopos e de densitometria, e o estudo trata de um caso específico, de uma espécie em uma cidade.
Com informações de Jornal da USP.
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