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Biodiversidade· 05 de novembro de 2026· 3 min de leitura

Cacau avança sobre pasto antigo na Amazônia e não sobre floresta

Mapeamento da Embrapa aponta 116,4 mil hectares de cacau no Pará em 2024, com 96% em áreas desmatadas antes de 2020.

Redação Giro Ambiental
Cacau avança sobre pasto antigo na Amazônia e não sobre floresta

Um mapeamento da Embrapa indica que a área de cacau no Pará cresceu um terço entre 2022 e 2024, de 87.309 para 116.436 hectares. Segundo o estudo, 96% do cacau mapeado no estado e 98% do de Rondônia estão em áreas desmatadas antes de 2020, a data de corte do Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR).

O levantamento foi feito por Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, com apoio da CocoaAction Brasil, iniciativa público-privada ligada à World Cocoa Foundation. Os resultados foram apresentados em agosto, no ExpoCacau 2026, realizado na Bahia. A área mapeada somou cerca de 121 mil hectares nos dois estados, espalhados por 61 municípios no Pará e 51 em Rondônia.

Rondônia não tinha mapeamento de cacau até agora. A primeira linha de base encontrou 5.340 hectares na região, sobretudo em lotes familiares.

Pasto antigo e agrofloresta

O cacau que se expande no Pará não ocupa floresta primária. Segundo o estudo, a maior parte das plantações novas está em pastagens e outras áreas abertas há muito tempo. Em 2022, todo o cacau identificado no estado estava em sistemas agroflorestais (SAFs). Agora, quase dois terços dos plantios novos são monocultivos a pleno sol, sem sombreamento. A produtividade por árvore é maior, mas a lavoura fica mais exposta a pragas e doenças e deixa o produtor dependente de uma cultura só.

A maior parte das propriedades é pequena: 84,6% das áreas com cacau no Pará têm até 5 hectares, segundo o estudo. Uma parcela também continua escondida sob dossel. Cerca de 11.444 hectares no Pará, algo perto de 10% da área mapeada, e 148 hectares em Rondônia ainda aparecem como floresta, porque o cacau foi plantado sob copa rarefeita, sem corte raso.

Mapa para a rastreabilidade

O mapeamento nasceu no TerraClass, programa feito com o Inpe que classifica o uso das áreas desmatadas na Amazônia. A equipe chegou ao cacau depois de incluir dendê, citros e café. Segundo o relato da equipe, as primeiras imagens de satélite não faziam sentido, e parte dos talhões que pareciam floresta secundária era cacau sob árvores mais altas. A validação exigiu visitas a campo com técnicos da Ceplac e da Emater-Pará.

Vítor Stella, coordenador técnico da CocoaAction Brasil, diz que o mapa serve à rastreabilidade. Em algumas viagens, ele percorre 150 quilômetros de estradas vicinais a partir da Transamazônica para chegar a um produtor com um hectare de cacau. A atualização de 2025 combinou radar com imagens de alta resolução de vários satélites e migra os modelos para o SITS, software de código aberto desenvolvido pelo Inpe.

Preço alto e conta do produtor

A expansão acompanhou a alta internacional. Depois de quebras de safra em Costa do Marfim e Gana, os contratos de cacau em Nova York subiram quase quatro vezes, de cerca de US$ 3.300 por tonelada em 2023 para cerca de US$ 12.900 em dezembro de 2024. Desde então recuaram para perto de US$ 5.800, ainda cerca de 75% acima da média de 2023. Venturieri afirma que a escolha por pasto tem razão econômica, porque derrubar floresta sai caro e plantar em pasto degradado é mais barato e mais rápido.

Para quem exporta, a leitura é outra. Na Europa, o EUDR passa a valer para grandes operadores em 30 de dezembro de 2026 e barra cacau de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Em Pará, cerca de 80% do cacau mapeado está em área desmatada até 2008, classificada como "zona segura", 17% em áreas desmatadas entre 2009 e 2020, e 3,9% em "zona de risco" posterior a 2021. Em Rondônia, a divisão é 92%, 6% e 2%.

Stella afirma que o Brasil pode produzir muito mais sem abrir área nova. O país tem cerca de 600 mil hectares de cacau com produtividade média de 350 quilos por hectare, e correção básica de solo e poda poderiam dobrar ou triplicar esse número. Para quem licencia ou acompanha cadeias de rastreabilidade, o ponto central é que o mapa passa a comprovar a origem do grão, não só a área plantada.

Com informações de Mongabay (EN).

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