Concessionárias do Reino Unido faturam £ 340 mi com esgoto fabril
Uma base com 26 mil autorizações revelou que operadoras britânicas receberam 608 bilhões de litros de efluentes industriais em estações que não removem químicos complexos.

As companhias de saneamento do Reino Unido faturaram mais de 340 milhões de libras no último ano ao receber efluentes industriais e comerciais em estações de tratamento de esgoto convencionais. Uma apuração conduzida pela Watershed Investigations com o jornal The Guardian e a organização River Action montou um banco de dados inédito com 26 mil autorizações, revelando a entrada anual de 608 bilhões de litros de despejos fabris, hospitalares e de aterros no sistema de esgotamento público.
O volume decorre das autorizações de efluentes industriais, chamadas de trade-effluent consents. Por lei, as concessionárias são obrigadas a acolher esses resíduos líquidos mediante cobrança tarifária, mas detêm o poder de aprovar ou recusar pedidos. O processo não possui cadastro público centralizado nem passa pela fiscalização direta da Environment Agency, o órgão regulador ambiental da Inglaterra, que exerce função análoga à do Ibama ou das agências estaduais brasileiras. As próprias empresas privadas avaliam, emitem e fiscalizam o cumprimento das permissões.
A fragilidade técnica central decorre do projeto das estações de tratamento de esgoto (ETEs). Praticamente todas as unidades da rede operam apenas com processos biológicos secundários, desenhados para abater carga orgânica doméstica, e não para degradar compostos sintéticos ou recalcitrantes. O levantamento identificou licenças autorizando o descarte de cianeto, crômio, cádmio, mercúrio, solventes orgânicos e substâncias per e polifluoroalquil (PFAS).
Falhas no controle e contaminação em cadeia
Sem sistemas terciários avançados capazes de reter essas moléculas, os químicos industriais atravessam as plantas e são lançados diretamente em rios e zonas costeiras junto ao efluente tratado. Outra fração expressiva dos contaminantes acaba retida no lodo de esgoto gerado no processo, material que é posteriormente distribuído para produtores rurais e aplicado no solo agrícola como adubo. O fluxo adicional de resíduos fabris também eleva a sobrecarga hidráulica das redes, ampliando os episódios de extravasamento de esgoto in natura durante temporais.
O aporte por caminhões-tanque diretamente nas ETEs eleva o risco operacional. Servidores da autoridade ambiental britânica apontam o chorume de aterros sanitários como o principal foco de preocupação devido à mistura química complexa. Concessionárias como a United Utilities, que registrou 61,6 milhões de libras em receitas no segmento, e a Wessex Water recebem filas de caminhões para descarga em plantas específicas. Na maioria das operações, a triagem na entrada restringe-se a testes rápidos de pH, incapazes de identificar compostos tóxicos antes que a carga se misture à linha de tratamento.
Para o setor de saneamento e a engenharia ambiental, o caso britânico explicita o limite técnico de tratar resíduos líquidos fabris em redes públicas. No Brasil, concessionárias e órgãos estaduais impõem normas de lançamento em rede coletora que exigem pré-tratamento obrigatório na fábrica e monitoramento constante de padrões de emissão. A experiência do Reino Unido comprova que transformar ETEs urbanas em receptoras de passivos industriais sem fiscalização independente gera risco direto de transferência de poluição para bacias hidrográficas e solos.
Com informações de The Guardian: Environment.
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